quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Véspera da véspera de Natal.

Dia 23 de dezembro, uma noite de segunda-feira, um garoto desolado pelo caminho que o seu "quase relacioamento" estava tomando, procura em sua lista de contatos por alguem com que pudesse desabafar e encontrou uma antiga amiga à quem costumava contar sobre a sua vida antes de ela ter parado de responder suas mensagens sem qualquer motivo que o garoto lembrasse.
-Olá menina sumida que desapareceu da minha vida. - Foi seu cumprimento. O garoto não teve a sorte de ser recebido com alguma desculpa engraçada para justificar a ausencia de sua amiga.
- Uai, quando eu pensei em você de outra forma, você foi um imbecil comigo! Como posso lhe ajudar agora, garoto? - Uma resposta curta, inesperada e suficientemente forte para tirar o pensamento do garoto de seu "quase relacioamento" e começar a pensar em quantas vezes ele realmente foi um idiota com várias pessoas.
Demorou algum tempo para que sua amiga aceitasse as suas desculpas e depois de alguns minutos de conversa ela lhe revelou que iria casar-se no ano que estava chegando.  O garoto ficou muito feliz por sua amiga e sentiu um pouco de inveja por ela ter conseguido algo que ele buscou várias vezes e não encontrou.  Mas não demorou muito para o garoto perceber que as dificuldaes eram simplesmente a consequência por ter dado tão pouco valor a várias pessoas que passaram por sua vida.
- Tudo na vida tem consequência, admito que mereço essa dificuldade que estou passando mas não acredito que esse seja um motivo para desistir de ser feliz. Cedo ou tarde, todos iremos encontrar alguem para dividir sorrisos e gargalhadas. - O garoto disse em voz alta para si mesmo.

Oi, tudo bem?

A "quanto tempo?" foi o quarto conjunto de palavras ditas naquela tarde. Tarde de domingo em que a cidade toda comemorava previamente algo que muitos já tinham certeza que aconteceria e não deu outra,  vitória do time mineiro que enfrentava um dos maiores times gaúchos no campeonato brasileiro.
O cheiro de carne pouco interessava para aquele cara de cabelos bagunçados e olhos verdes que se sentava no chão ao lado de seu primo por falta de cadeiras. Ele, na verdade, estava muito mais interessado em ler o que a garota, que por coincidência também é gaúcha, tinha a dizer sobre o que atualmente tem acontecido em sua vida e quais decisões ela tinha tomado e descobriu também, por acaso, que essa garota de cabelos ruivos estava solteira.
Esses dois se conheceram em um mundo virtual ao tentar administrar a diversão dos outros e a sua própria também. Faziam parte de um grupo de centenas de jogadores que tinham um objetivo em comum, conquistar algo fútil.
Nunca tiveram muito em comum e nem mesmo trocaram muitas palavras naquela época, o temperamento forte estava marcado nos dois e isso foi motivo suficiente para não falar mais do que o necessário ou então ouvir imitações sobre sapos e vozes dentro do aquário. Talvez a decisão de largar toda aquela futilidade tenha sido a única ideia em comum que tiveram nesse periodo de convivência de ... Um ano? Não guardei esse detalhe quando me contaram esta história.
Após isso, de meses em meses o tal cara dos olhos verdes dava algum boa tarde ou boa noite para a garota dos cabelos ruivos, mas nunca passou disso, até aquela tarde de domingo e a próxima tarde de sabádo e a madrugada de domingo e a tarde de domingo e a outra semana que se passou e todos os outros dias da próxima...
Estranho, não? Dois desconhecidos até então, tendo tanto a falar um pro outro? Tantos sorrisos e tanto interesse em saber como foi o dia da outra pessoa... Alguma coisa estava errada e não demorou para os dois perceberem isso.
Meu conhecido que me contou a história desses dois me disse que era constante ouvir esse garoto falar sobre viver sozinho e sobre os amigos insanos e divertidos que ele tinha, mas isso não durou muito. Me disse também que esse garoto entrou em um caminho que a volta seria dolorosa demais quando aceitou que estava sentindo algo por essa garota e quando falou sobre isso com ela, ela chorou... A partir desse momento tudo pareceu fazer algum sentido. Mesmo sabendo que não era totalmente racional, ele e ela resolveram ir seguindo pra ver no que ia dar. Não demorou muito para um desses dois esfriar, pensar racionalmente caso não gostasse do outro ou pensar inrracionalmente caso gostasse.
 A verdade é que a situação era muito mais complicada do que parecia ser, mas poderia se tornar simples muito mais rápido do que parecia demorar.

A falta de informação sobre o lado da garota ruiva nesta história é evidente, infelizmente meu conhecido não conheceu ela e a única coisa que o garoto de cabelos bagunçados disse para ele foi: "let she take her own time".

Ao infinito e além...

Sábado, 14 horas. Hora de se conectar a internet, abrir o messenger, acessar o mundo virtual e abrir o programa utilizado por dois amigos que moravam em estados distantes para se comunicar por voz. A diversão era certa, o mineiro e o piauiense passavam o final de semana inteiro rindo e explorando terras desconhecidas que eram representadas por pixels na tela de um computador.  Dois garotos bobos, o mineiro com 13 anos e o piauiense com 17.
Os anos se passaram, os garotos cresceram, deixaram de ser tão bobos assim e começaram a explorar em seus estados um mundo muito mais interessante que não era formado por pixels, mas sim por aventuras e fortes amizades. Cada um foi vivendo e seguindo seus sonhos, o mineiro com cada dia uma idéia na cabeça e o piauiense decido que seu destino era um só, voar.
Depois de 6 anos do inicio dessa amizade, surge um convite vindo do nordeste brasileiro para o garoto mineiro.
- Venha para cá no carnaval, você vai conhecer a festa do litoral nordestino e vai acabar parando com essas piadas idiotas sobre falta de água e nordestinos. - E como a maioria das conversas desses dois, essa foi repleta de risadas.
O mineiro aceitou o convite e os dois decidiram combinar os preparativos no inicio do ano que estava por vir, pelo menos para um deles.
Início do mês de Dezembro, avião monomotor cai no Piauí.
O maior arrependimento do garoto mineiro foi não ter conhecido pessoalmente o seu grande amigo em uma oportunidade que tiveram de se encontrar no Rio de Janeiro anos antes.

Sempre me disseram que nossos sonhos tem o poder de nos matar, mas eu nunca havia sentindo a dor de perder alguém tão querido antes.

Capítulo 1 - Serrasolar.

- Pate, seu pai o espera, mas não dê ouvido às maliquices que ele planeja para você. Parece que ele não percebe a idade que você tem! - Pate ouviu a Senhora Solar o dizer.
- Estou indo mãe. E por favor, não grite como se eu fosse uma criança!  - E saiu andando calmamente com uma postura digna de um jovem escudeiro.
Ao cruzar os arcos de pedra bege que anunciavam a chegada ao Salão principal de Serrasolar, o castelo da familia Adagadourada, viu seu pai, o imponente Lorde Adagadourada, com seus três conselheiros ao seu lado. O gordo Sor Jon Estreladiurna, Sor Harry Raiosolar, o irmão de pele escura e olhos calculistas da esposa de seu pai e Sor Pedro, o irmão mais velho de Pate e futuro Lorde Adagadourada.
Pedro foi até Pate e lhe deu um abraço, gesto que Lorde Adagadourada com certeza o censuraria mais tarde.
- Pequeno Pate, pronto para partir em sua aventura escura e cheia de terrores? - Disse o irmão com um enorme sorriso no rosto.
- Não sou nada pequeno e é só uma pequena viagem até Castelobranco. Vou ficar bem, além do mais, não sairei de Terradourada. - E para afastar a triste lembraça que era a sua altura, Pate recitou para seu irmão o lema de sua família. - Quando a adaga dourada rasga o céu noturno, não existe escuridão que prevaleça em Terradourada.
- Tenho certeza que sim, meu irmão! - Ouviu Pedro dizer enquanto se dirigia ao outros dois conselheiros.
- Bom dia Sor Jon e Sor Harry, vieram me desejar boa sorte?
- Bom dia Pate. Claro que viemos, temos absoluta certeza que precisará de muita perícia com a espada  e sorte para sobreviver à essa terrivel aventura! - Disse Sor Jon Estreladiuarna enquanto apertava sua mão.
Sor Harry se demonstrou menos falso quando recitou o lema de sua família. - Lembre-se Pate, a noite é sempre mais escura antes do amanhecer. - Pate que já estava farto de todos os perigos que inventaram para esse pequeno passeio que fora a única missão que sua mãe concordou que participasse, apenas agradeceu aos dois conselheiros antes de chegar ao principal homem que estava naquele salão, seu pai.
- Deixe-me ver sua espada filho. - Pate obedeceu ao pedido do pai. Por mais que tivessem sido escolhidas palavras gentis para compor a frase, soou como uma ordem. - É uma bela espada para treinos entre dois rapazes com armadura o suficiente para não se arranharem, mas temo que não será o suficiente caso encontre algum bandido qualquer no caminho e necessite salvar o seu primo desses míseros infelizes. - Lorde Adagadourada pediu que  Sor Harry o entregasse um pacote em formato de espada e esticou o braço para entregar ao filho. - Espero que use isso com sabedoria e sem misericórdia com que não merecer.
Os olhos de Pate brilharam quando viu o formato daquele pacote e seu primeiro pensamento foi de que aquilo não poderia ser uma espada, sua mãe nunca teria concordado com esse presente. - Pai, isso é sério? - Esperou seu pai acenar positivamente a abriou o pacote e dentro dele encontrou a espada mais bonita que alguma vez já vira, sua lamina era dourada e seu punhal tinha esmeraldas em formato de pequenos sóis verdes e brilhantes. - Obrigado pai, a usarei com sabedoria. - Respondeu Pate com um sorriso no rosto para esconder o desagrado de ouvir "sem misericórdia com quem não merecer".
Pate não demorou muito para embainhar sua espada e apertar firmemente a mão do pai de forma que ele sorriu de aprovação. - Vá encontrar seu primo nos jardins. - E Pate virou as costas para ir na direção que seu pai apontara.
Não era difícil encontrar seu primo Rafael quando ele estava em Serrasolar. Se não estivesse se reportando para o pai de Pate estaria nos Jardins cortejando sua linda irmã de pele escura e cabelos lisos e negros. - Olá Pate, vejo que não teve dificuldades em me encontrar. É sempre agradável lhe ver primo, embora você não tenha herdado essa provocante cor de pele da sua irmã. - Disse Rafael, o forte cavaleiro de cabelos negros e barba cerrada que todas as mulheres pareciam amar.
- Não perde uma chance de elogiar minha irmã primo, mesmo que seja de forma um tanto quanto derespeitosa. - Pate censurou seu primo que não demorou a mudar de assunto.
- Está pronto para a viagem? Ouvi dizer que matará mais bandidos nesses dois dias de viagem do que eu matei em toda a minha vida.
- Sim, irei. Mas começarei pelo mais rídiculo deles, você! - Disse Pate rindo antes de abraçar o seu primo.
- Ora Pate, pode me chamar de várias coisas, mas só poderá me chamar de bandido no dia em que roubar o coração de sua irmã. Falando dela, vá logo se despedir, temos que partir. - Disse seu primo e logo depois beijou a palma de sua mão e a soprou na direção em que se encontrava a jovem Ana Adagadourada.
A irmã de Pate pareceu lhe dar o abraço mais forte que recebeu naquele dia. - Mamãe disse que não teria coragem de se despedir de você, então me pediu para te dar uma abraço que valesse o dela também. Tem certeza que deseja ir? - Perguntou ao irmão.
- Sim, Ana. Já estava mais do que na hora de me tornar escudeiro de alguem, pena que não tenha conseguido um cavaleiro mais experiente que Rafael.
- Não seja tão insuportável, querido. Rafael é um dos cavaleiros mais renomados de Terrasolar e tem a confiança de nosso pai, por mais que seja um pouco insolente com as damas da corte. - Disse Ana enquanto beijava o rosto de Pate. - Você precisa ir caso não queira se atrasar no conselho.
Pate despediu de sua irmã e foi encontrar seu primo já na porta do castelo com seu enorme cavalo negro e o belo cavalo branco de Pate ao seu lado.
- Este seu cavalo é mesmo digno de um Adagadourada de nascimento elevado. - Disse enquanto sorria. - Estou surpreso por sua mãe não mandar meia duzia de cavaleiros para te escoltar até Castelobranco. O que será que seu pai deu para ela comer esta manhã? - Perguntou Sor Rafael Adagadourada em tom de brincadeira.
- Não faço ideia Rafael, mas não vamos reclamar da nossa boa sorte, não é? - Pate disse sorrindo. Durante todo o caminho até os portões da cidade Rafael lhe contou dos acontecimentos da sua ultima missão, onde teve que caçar um lobo para comer pois não encontrara nenhum animal mais adequado para sua refeição. - Sim Rafael, faço ideia do quão sabaroso estava este lobo imaginário que você comeu.
- Você ri agora primo, logo terá que comer o seu primeiro lobo também. Bom, é aqui que começa nossa viagem Pate, agora já é o meu escudeiro.

Pate sorriu e atravessou os portões da cidade. Sua primeira visão foram os campos dourados de trigo que rodeavam toda a área de Serrasolar e o caminho que descia serra abaixo até os campos verdes que Sor Harry Raiosolar protegeria. Uma bela visão, admitiu Pate, mas não bela o suficiente para não olhar para trás e ver o enorme castelo  que era Serrasolar. O castelo bege que enquanto o sol se mostrasse seria dourado.